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O cristo de barro
Passei um tempão pensando na vida. Daquele dia em diante, quase não falava, não dormia bem, não me alimentava bem e o pior, não desenhava. Achava que meu pai, o diretor, o reitor, o professor, o mundo todo estava contra mim. Ficava imaginando como seria bom ser livre, poder desenhar, pintar, esculpir, ser um artista como os grandes artistas que eu conhecia através de belas reproduções. Sonhava dia e noite com isso. Só sonhava!
O tempo não passava pra mim. Não agüentava mais. Foi quando planejei ir embora do internato. Mas como? Pra onde? Para casa, nem pensar! Eu tinha algum dinheiro, era pouco. Esperei mas algum tempo, pois meu pai mandava todo mês uma mesada, eu não gastava nem um centavo. Podem acreditar!... A única arte que eu fiz naqueles meses foi lá no campo de futebol. Achei que um pouco de terra do barranco não iria acabar com o campo, retirei um pouco e apanhei água.
Não era argila, mas dava um barro consistente, então modelei uma cabeça de Cristo (hoje está com o diretor). Até parece milagre... Alguns dias depois aconteceu realmente um milagre!
O diretor e o reitor, até
meus colegas, passaram a me tratar com mais carinho, meu coração
transbordava de esperança, achei que poderia pedir ao diretor para me
deixar assistir às aulas de desenho. Foi na primeira oportunidade, quando
ele mandou me chamar na diretoria; eu pensei: "nossa... acho que encontraram
a cabeça de Cristo que estava escondida lá no meio das bananeiras
depois do campo, pra secar". Ele me recebeu amavelmente, e disse:
-- Parabéns... é uma bela obra!
-- Obra... que obra, senhor?
-- A cabeça que você fez... do Cristo!
-- Ah... é... é, eu fiz na ultima quinta-feira, dia da aula de desenho, sabe, eu...
-- Não, não tem problema... eu gostei muito, ela vai ficar bem guardada .
-- Ah, tudo bem!... respondi admirado.
-- Ótimo! Pode ir para o recreio.
-- Senhor, eu... eu posso freqüentar as aulas de desenho?
-- Não, ainda não.
Pensei: será que um dia eu poderei compreender tudo isso?
Um plano perfeito
Eu tentava entender essas contradições, desde criança. Às vezes podia, outras não podia.
Andava pelo pátio, entre a garotada, e não escutava a algazarra que faziam; fui até o final do campo de futebol, sentei num lugar qualquer e fiquei imaginando o que fazer da vida, olhando as nuvens formarem figuras de anjos... e animais, nem escutei o sino tocar, chamando pra aula de matemática.
Ali fiquei até aparecerem as primeiras estrelas no céu, eu estava extasiado com a beleza daquele entardecer, de um colorido fantástico, fascinante. Só percebi que já era noite, porque as estrelas brilhavam com mais intensidade... fiquei preocupado,
E agora, o que fazer? Eu não vi o tempo passar!
Aí eu apelei pro meu Anjo Guardião. Foi neste momento de devaneio que ouvi gritos, alguém me chamava: Turquinhooo... Turquinhooo... Sabem de uma coisa? Eu nem sei porque me chamavam de Turco, não falo a língua Turca, não sou Turco, falo o Árabe, nasci no Líbano. Sinceramente, não entendo, mas ainda vou entender o porquê! Sabem o que aconteceu no dia seguinte?...
Me deram o maior castigo do ano; acho que não devo contar qual!
Mas vou contar o efeito que produziu aquele castigo! Uma fuga; é... fugir, ir embora. Aí, comecei arquitetando um plano perfeito: levar em uma pequena mala algumas roupas e esconder onde guardam toda a roupa de cama, num quarto que fica ao lado do dormitório -- lá tem uma janela que dá pra rua. De madrugada, vou até lá e pego três ou quatro colchas finas das mais resistentes. Torço bem a colcha e amarro numa estante bem firme que está ao lado da janela, amarro todas as outras e jogo pela janela, em seguida desço com cuidado (fácil, não é? Vi isso no cinema, parecia muito fácil!...)
Fico em algum lugar escondido, talvez embaixo da ponte até a hora de partida do primeiro ônibus para Belo Horizonte.
Aperfeiçoei o plano, examinando os prós e contras, sem deixar um só detalhe passar.
A fuga do internato
Duas horas da madrugada. Olhei para os dois lados, todos dormindo. Andando com muito cuidado, pois estava muito escuro, amarrei as colchas como planejara, a pequena mala pendurada na cintura. Não tão fácil como no filme que vi, mas deu certo. Caminhei rapidamente para debaixo da ponte que não ficava muito longe dali. E agora? O que fazer? Ficar ali até as cinco ou procurar um lugar mais seguro? Sim... porque eu correria o risco de ser assaltado. A luz prateada da lua refletia nas águas tranqüilas do lago, ali na minha frente, iluminando uma pequena canoa que estava com a metade fora da água. Será que...
Humm... boa idéia: Vou entrar no barquinho e empurrar pra dentro d'água, assim me sentirei mais seguro. Uma vez no barco, deitei no fundo para ninguém me ver. Olhando o céu, comecei a contar as estrelas, não tinha chegado a trinta quando adormeci. Horas depois, acordei assustado. O dia já claro, um pouco de neblina, olhei pra todos os lados, cadê a ponte!? E a cidade? Olhando bem, vi lá longe algumas casas. É... o barco foi levado pelo vento, estava no final do lago, cheio de capim (capim navalha) ao redor do barquinho, foi quando notei que não tinha remos. O que fazer? Tentei levar o barco até a beirada puxando o capim e cortei as minhas mãos, que sangraram muito, fiquei desesperado. Olha, nunca orei tanto como naquela linda manhã, vocês podem imaginar: eu ajoelhado de mãos postas. Pois neste momento, como se alguém falasse baixinho ao ouvido: "pega uma camisa, enrola na mão pra não se machucar"...
Assim cheguei até a beirada do lago, agradeci ao meu "anjo" e fui em frente, tive que andar um bocado de chão. O ônibus já tinha saído, e o próximo só às sete e trinta. Durante a viagem, tive a sensação de que alguém me perguntou:
-- Pra onde você vai?
-- É uma boa pergunta!, respondi. Conheço o Rio só de fotos e do cinema, mas... é pra lá que eu quero ir. E em Belo Horizonte? Para casa é que eu não posso ir.
-- Pois é essa a pergunta!... Se não pode ir pra casa... pra onde?
-- É... agora você me criou um problema sério!
-- Eu, não! Você é que criou; eu só crio desafios, e não problemas!
Os desafios
Ah, é... Então já sei, daqui pra frente não vou ter mais problemas, só desafios. Espero que você esteja sempre ao meu lado, não que eu não possa vencer os desafios, mas cá pra nós, alguns são bem complicados, aí você vai me dar uma mãozinha, não vai? Nesse momento a roda do ônibus entrou num buraco ou passou por cima de uma pedra, só sei que deu uma freada de assustar, cortando o monólogo. Ficou na minha cabeça um monte de desafios. Me lembrei de vários que superei com facilidade. Acho que fui e ainda sou um otimista; certas lições do passado, desta e de outras vidas; vocês podem estar pensando, que negócio é esse de outras vidas? É um longa estória... mais lá pra frente a gente fala nisso, porque há muitos "causos" pra contar sobre isso...
Quem sou? De onde vim? Para onde vou?
Quem sabe as respostas para essas perguntas?... Não vão pensar que estou me achando o dono da verdade! Não é nada disso, apenas procuro analisar os fatos.
Hum... aonde eu estava, mesmo!?... Ah...sim, pensando nos desafios que tinha pela frente, aí escuto aquela voz:
-- Deixa as coisas correrem por conta de sua intuição.
-- Tudo bem... eu confio em você, hein?!...
Epa... o ônibus já está entrando na rodoviária, chegamos! Peguei minha maleta, olhei para os lados e fui em frente pra ver aonde me levaria a minha intuição... A primeira coisa que pensei foi num amigo de B. Horizonte. Mas quem... ou melhor, qual deles poderia estar aonde?
Fui andando (a rodoviária fica perto do centro), sempre olhando para os lados. Será que o Marcelo está lá no bar do pai dele? Fui até a Av. Afonso Pena (centro da cidade), é uma avenida arborizada e muito larga, com uma pista entre as duas vias, cercada de lindas árvores; por ali passava o bonde. Eu fiquei atrás da árvore que ficava em frente ao bar, tentando ver se meu amigo estava lá. Enquanto isso, me perguntei: onde vou dormir esta noite?... Se não encontrar o Marcelo, vou até a casa do Rui. Não, o pai dele pode telefonar lá pra casa, aí complica tudo. É melhor falar com o Murilo, o pai dele tem uma oficina mecânica e ele tem a chave do porta do lado, talvez... Epaa... O Marcelo chegou! Enfiei os dois dedos na boca e assobiei...
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