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De Trem para o Rio
Ele conhecia bem o meu assobio,
olhou pra todos os lados, até me ver, ficou assustado, eu não
poderia estar ali. Olhou desconfiado, pois eu estava no vão central,
do outro lado da avenida. Ele atravessou a rua e só acreditou quando
já estava bem perto. Espantado me perguntou: Uaiiiii, que aconteceu?...
-- Calma, chega aqui, seu pai não pode me ver. Aí contei tudo
que aconteceu comigo. Não sei onde vou passar esta noite, estou pensando
em pegar o trem pro Rio, tenho o dinheiro da passagem e mais um pouco, ou dormir
na oficina do Murilo...
Aí ele me contou as coisas que vinham acontecendo. E disse: eu vou com
você!
-- Não... você não deve ir comigo.
-- Porque?
-- Porque depois seu pai vai me culpar!
-- Não, não vai não; eu vou ver quanto tenho, se dá
pra pagar a passagem, e mais um pouco, talvez a minha irmã possa me ajudar
nessa, ela vai colaborar.
-- Ai, meu Deus... pense bem o que você vai me arranjar!
-- Não esquente a cuca comigo! Vai para estação e me espere
lá, o noturno para o Rio sai às dez horas, eu estarei lá
no final da tarde, combinado?
-- É... tá bem! Você vai mesmo comigo pro Rio?...
-- Vouuuu.... já disse, não esquenta....
-- Tá bem... combinado!
São oito horas, quando meu
amigo chegou, contando como foi a maratona pra arranjar mais dinheiro, e que
tinha encontrado com o um amigo nosso, o Rui, que pegaria o noturno no dia seguinte.
Pediu pra gente esperá-lo na estação. Eu fiquei preocupado,
só conhecíamos o Rio de fotos e do cinema.
O trem apitou forte, duas vezes, e começou a andar. Eu não sei
definir bem o que estava sentindo, uma sensação de quem estava
sozinho no mundo, um órfão. O Marcelo fazia planos para o futuro,
mas eu não estava escutando, estava assim como se estivesse anestesiado,
com muito sono, cansado mesmo. Quanto mais o meu amigo falava, com mais sono
eu ficava, aí eu apenas disse: não agüento... Virei pro lado
e apaguei.
No Rio de
Janeiro
Um apito longo, um não, vários apitos. Tinha acordado várias
vezes durante a viagem, não dormi bem, sentia o corpo todo quebrado,
mas quando o trem deu o primeiro apito, levei um susto tremendo. O Marcelo já
estava acordado. O trem diminuiu a velocidade, alguns passageiros pegando seus
pertences. O trem parou. O Marcelo disse: acho que chegamos!...
-- Você tem alguma dúvida?... Anda, vamos descer.
-- Que horas são?
-- Dez horas.
Ficamos parados em frente à estação, apavorados com aquela
poluição sonora, buzinas, o blen-blen dos bondes, aquela correria
dos transeuntes apressados, atropelando a gente. Sem saber para onde ir. Imaginem
dois adolescentes mineiros... uaii, atrapalhados, numa metrópole como
o Rio... Rio de 1947 -- parados em frente à Estação D.
Pedro, na Av. Pres. Vargas, junto à Praça Onze, ao lado da Praça
da Liberdade, sem rumo certo; pois é, a situação era de
meter medo. Olhei pra esquerda, vi do outro lado uma placa "Hotel Mineiro"
- Marcelo, vem comigo; pega a mala... ou vai deixá-la aí? Vamos,
fica perto de mim, cuidado... espere, agora vamos, rápido. Para atravessar
pro outro lado foi terrível. Essa cena, se fosse filmada... vocês
iriam rir um bocado. Chegamos ao hotel: bom dia, senhor...
-- Bom Dia, algum problema?
-- Não, é que acabamos de chegar de Minas, vimos a placa: HOTEL
MINEIRO, aí falei pro meu primo: olha estamos salvos, aquele hotel é
pros mineiros; não conhecemos nada do Rio. Por outro lado, temos que
ficar perto da estação, porque amanhã chega um parente
nosso! Se formos pra um lugar distante, não vamos saber como voltar.
-- Sinto muito... conterrâneo, o hotel está lotado!
-- Mas... senhor, basta um canto qualquer!
-- Hum... tá. Vem comigo.
Subimos três andares pela escada e mais um pequeno lance pro sótão,
tinha um quarto com o teto baixo, só tinha uma cama, o banheiro no andar
de baixo. Eu disse que estava ótimo. Deixamos as malas e saímos
agradecidos. Fomos dar uma volta, vimos um ônibus parado no ponto, "Copacabana
Madureira". O Marcelo disse: vamos pra Copacabana?... Fomos parar em Madureira.
-- Uai... aqui é Copacabana, moço?...
-- Não... nós viemos de Copacabana para Madureira, e vamos pra
lá daqui a dez minutos.
-- Tá bem, nos vamos ficar aqui sentados, por favor, na volta, quando
chegarmos perto da estação o senhor nos avisa?
Chegamos com fome; vamos comer algo naquele boteco ao lado do hotel.
-- Por favor, queremos comer um "trem" qualquer!
-- Trem não tem não; mas temos P.F. Trem tem ali (apontou para
estação, rimos muito). Tá bem... Dois P.F. então.
Aí ficamos olhando o movimento e fazendo planos por um bom tempo. Saímos
para andar um pouco pela redondeza. Paramos a uma certa distância do hotel,
quando notei um movimento estranho na portaria, um entra e sai de casais, falei
pro Marcelo:
-- Acho que o nosso hotel não é bem hotel...
-- É... parece que é um... sei lá...
-- Foi por isso que o dono ficou pensando muito pra nos ajeitar um canto! E
pensou muito para dar o preço... que foi muito barato, uaiii... Achei
que ele não iria cobrar nada por aquele quarto apertado que mal cabe
a cama!
-- Eu acho que ele ficou com dó da gente;
-- É... mineiro é gente boa!
-- Vamos esperar um pouco e depois entrar discretamente, temos que acordar cedo
pra comer um trem qualquer e esperar o Rui na estação.
Passamos a noite quase toda sem poder dormir, não foi só o barulho
externo dos carros e ônibus, bonde etc.
O pior barulho foi dentro do hotel, se é que podemos chamar aquilo de
barulho... o certo é que não estávamos acostumados com
esse tipo de barulho, o que fazer?...
No dia seguinte fomos correndo para estação; o trem já
tinha chegado. O Rui estava desesperado procurando a gente.
Em fim os três Mos... quer dizer, mineiros juntos, uaii...
Apanhamos nossas coisas no hotel e agradecemos de coração ao nosso
amigo mineiro.
-- Agora vamos para Copacabana... vamos pegar o ônibus, mas... o que está
voltando de Madureira... (a última vez que pegamos o ônibus "Copacabana-Madureira"
fomos parar em Madureira, pois ele estava vindo de Copacabana)
Copacabana
-- Então... vamos pro outro
lado da avenida, se deste lado ele vai pra Madureria, do lado de lá ele...
cuidado! Olha o sinal!... Assim vocês vão acabar não conhecendo
Copacabana. Agora... vamos, depressa. O ônibus não demorou a chegar,
entramos, o Marcelo foi logo perguntando ao trocador: esse ônibus vai
pra Copacabana, né?... Eu pedi para nos avisar, assim que chegar. Descemos
perto da praça do Lido, e fomos ver o mar, depois compramos um jornal,
sentamos num banco da praça para ver os classificados. Eles queriam morar
em Copacabana... Aí, eu protestei:
-- O aluguel aqui é muito alto... Por falar nisso, vamos ver quanto temos;
Rui, quanto você tem?
-- Bem... eu não tive tempo pra... quero dizer, eu vi no guarda-roupa
do meu pai um embrulho grande, ele guarda o dinheiro da féria do dia
ali, para depositar no dia seguinte, tinha mais um menor, aí eu peguei
o maior, eu já tinha comprado a passagem com o que eu tinha guardado;
abri o embrulho no trem, qual foi minha surpresa... só tinha Filipeta
(nota de um Real).
-- Uaiii...!? afinal, quanto tem?
-- Não chega a um Conto de Reis...
-- Mas quanto é o certo?
-- Uns... trinta e pouco!
-- E você, Marcelo?
-- Quatro Contos, menos a passagem.
-- Eu tenho três e meio. Então temos no total quase oito, sem contar
com o Rui.
-- Olha! Quartos pra alugar aqui perto, o anúncio diz: aluga-se dois
amplos quartos, Av. Copacabana, 131 ao lado da praça do Lido; é
aqui perto, vamos dar uma olhada?
-- Não dá o preço!
Fomos até lá, tocamos a campainha (era uma casa grande, estilo
colonial). Depois de um algum tempo, a porta abriu e saíram dois senhores,
gesticulando muito e falando alto, aproximaram-se do portão, um dizia:
vou revelar o filme, mais tarde volto pra pegar o texto, temos que paginar a
revista ainda hoje e mandar pra gráfica amanhã cedo; despediram-se.
O que ficou pediu desculpas e perguntou o que agente queria. Aí o Rui,
que é o mais velho, logo adiantou:
-- Nós queremos alugar um quarto!
-- Para os três?... Vocês têm referências? Estudam?
Trabalham?
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